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Bolha Imobiliária em Brasília – Política de Governo

13 março, 2010

O mercado imobiliário em Brasília bateu todos os recordes em especulação no país nos últimos anos, para a satisfação de uma pequena classe de construtores, corretores imobiliários e antigos proprietários. Todo o restante da população assiste imóvel, à violenta transferência de seu patrimônio para a mão de especuladores, quando se submete à compra de um simples imóvel para viver, muitas vezes minúsculo,longe do trabalho e sem estrutura alguma.

Várias pessoas já escreveram na internet sobre valores absurdos dos imóveis,capacidade de financiamento incompatível mesmo com as rendas mais altas do Distrito Federal e outras provas cabais que ajudam a alertar os futuros compradores sobre a bolha especulativa. Concordo com todos os argumentos, mas não é disso que irei falar.

Meu foco é o papel do Estado – Governo Federal e Governo do Distrito Federal, no processo de privatização do espaço em Brasília e captura dos órgãos públicos responsáveis pelo planejamento urbano e oferta de imóveis na Capital Federal.

Todo terreno no Distrito Federal pertencia ao Estado. Inicialmente,para costruir e incentivar o desenvolvimento da cidade, foi criada uma empresa pública – a Novacap. A cidade foi construída e as primeiras moradias eram destinadas a funcionários públicos, que moravam de graça em apartamentos recém construídos, de acordo com a posição hierárquica e área do serviço público que se encontrassem. Até vinte anos após esse período de instalação, terrenos em áreas nobres da cidade eram comprados à preço de banana, pela baixa procura e grande vazio que dominava o cenário do DF.

Nos últimos vinte anos, no entando, o crescimento exponencial do DF inverteu drasticamente esse cenário. A Terracap, formada a partir de uma divisão da Novacap, ficou com a responsabilidade de vender e urbanizar as áreas públicas disponíveis – e ainda resta muita área pública. À Novacap, restou trabalhos de urbanismo e manutenção na cidade.

Desde então, o cenário é o seguinte: Uma grupo econômico formado por políticos e empresários ligados à contrução civil, tomou conta da estrutura estatal de planejamento urbano e venda de imóveis. Por tomar conta entenda-se se utilizar da estrutura pública para  a realização de ações que beneficiem, antes de tudo, seus próprios interesses, em detrimento do interesse público. Para mascarar essas ações de “interesse público”, é utilizada muita propaganda e são favorecidas outras pequenas classes, como as de antigos proprietários e corretores imobiliários.

A oferta de novas áreas é totalmente controlada por esses grupos. Dessa forma, o governo oferece novos terrenos de forma lenta e insuficiente, para criar uma sensação de ausência de oferta e desequilibrar o mercado. Os órgão públicos não respondem à pressão por novas áreas, natural e esperada, mas respondem eficientemente à agregação de valor em suas ofertas de áreas nobres, com conceitos ultramodernos de “sustentebilidade ambiental”, que de sustentável não tem nada e só serve para inflar os já absurdos valores dos imóveis da Capital.

Esse caso, do setor Noroeste, é um exemplo clássico da captura do estado ao interesse privado. O bairro foi concebido por um órgão estatal para ser um bairro “nobre” e de alta renda. Ora, como pode o Estado, deliberadamente agir no sentido de aumentar a especulação, concentrar a propriedade e segmentar espaço público. Em um regime capitalista saudável, sem captura do Estado, o mercado seria responsável por especular e segmentar espaços imobiliários. Ao governo não caberia interferir e caberia tão somente oferecer condições para que o espaço fosse oferecido a um maior número de beneficiários possível. Em um paradigma ligeiramente mais intervencionista, menos liberal, ao Estado caberia intervir para que os grupos sociais com maior déficit habitacional fossem beneficiados com a política, contribuindo assim para a diminuição  geral da demanda e, conseguentemente, da especulação e dos preços.

Dessa forma, embora o cenário da bolha imobiliária exista por vários fatores associados, a participação do estado na construção de privilégios e na execução de políticas regressivas concentradoras de renda aparece como fator de extrema importância na situação atual. Tal fato se deve à captura do governo por interesses privados de pequenos grupos econômicos.

Na próxima eleição, exija de seu candidato(a), medidas para diminuir a atuação desses grupos na oferta de áreas no DF, bem como cobre maior e urgente oferta de projetos voltados para pessoas com baixa renda (mesmo que você não tenha baixa renda, você irá se beneficiar com uma redução geral de preços e aumento da oferta relativa),e que não sejam projetos excludentes em áreas distantes e com má urbanização, como vem ocorrendo nos últimos vinte anos na Capital.

Aumento dos Servidores Públicos – Supersalários do Executivo

8 agosto, 2008

Fazia tempo que não postava. Somente uma novidade dessas pra me fazer voltar a ativa. O governo federal deve encaminhar nos próximos dias, duas medidas provisórias (que mais tarde se converterão em Lei), aumentando os salários de uma série de carreiras do Poder Executivo, consideradas “tíipicas de estado”. Os valores oscilam entre 18 e 19 mil reais iniciais.

Esse assunto é extenso, complexo e cansativo. Um post abrangente e completo sobre esse assunto seria muito chato, e eu correria o risco de distrair e dividir muitas opiniões em filigramas inúteis e secundários, para alegria de nossos algozes. Pulemos as partes chatas, e vamos aos fatos e a algumas perguntas e opiniões. O efeito na cabeça do leitor inteligente será praticamente o mesmo.

Nosso país é um país em desenvolvimento, com índices de desenvolvimento humano subsaarianos em determinadas regiões, população pobre, com um déficit educacional secular astronômico e com uma gigantesca carência por investimentos em infra estrutura. Precisamos de transportes urbanos, estradas melhores, ferrovias, malha aérea moderna, portos, controle de fronteiras, forças armadas decentemente equipadas, segurança urbana, ordenamento urbano (ruas asfaltadas, amplas, bairros bem planejados, com calçadas, postes, pontos de ônibus, estacionamentos, etc), reforma agrária, desenvolvimento tecnológico, escolas de qualidade, sistemas eficientes de gestão pública, creches, alimentos nutritivos a preços baixos, hospitais decentes, para dizer o mínimo. Isso é o que me parece ser o mais urgente.

Um médico de hospital público ganha uma mixaria, e não será contemplado em nenhuma das MP’s. Um professor de escola pública recebe uma remuneração humilhante, e também não foi agraciado com reajuste (no caso deles, quase não conseguiram obter o piso de 950 reais recentemente). Os profissionais que constroem e projetam portos, rodovias e aeroportos, ou pertencem à iniciativa privada, e realizam os serviços por terceirização, ou recebem salários ridículos em órgãos sucateados da administração.

Quem ganha bem nesse país ? O Poder Judiciário ( O Brasil precisa, prioritáriamente, de mais judiciário ?) o Legislativo ( O Brasil precisa de mais ou de menos legislativo ? ) ou categorias como Diplomatas e Analistas de Comércio Exterior, Auditores da Receita (O Brasil precisa, prioritariamente, de auditores e diplomatas mais bem pagos, ou de mais auditores e mais diplomatas ?). E é justamente esse pessoal que agora pressiona para ganhar um salário ainda melhor.

Em economia existe um conceito básico chamado “custo de oportunidade”. Em linhas gerais significa o seguinte: Você tem dois reais. Uma maça custa dois reais. Uma laranja custa dois reais. Se você comprar uma maça, não poderá comprar também uma laranja, e vice-versa. O custo de oportunidade ao comprar uma laranja, é uma maça, pois os recursos são escassos, apenas dois reais. Transferindo o exemplo para o nosso caso, o custo de oportunidade de aumentar salários para funcionários públicos em setores não prioritários para o país no momento, e que já recebem uma remuneração muito boa, nos custa abdicar de nossas prioridades. Forças políticas poderosas atuam para fazer parecer o contrário, ou para não parecer importante esse tipo de escolha de como gastar os recursos, porque são exatamente elas as beneficiadas.

O fato é que atualmente, o serviço público brasileiro, além de não atender as necessidades da população, e, via de regra, prestar PÉSSIMOS serviços, custa à sociedade uma fortuna. Constitui, por sí só, uma classe auto-referida, que tem uma visão distorcida da realidade brasileira (especialmente os que residem em Brasília), e que visa tão somente aumentar os próprios benefícios numa corrida insana de ganância para ver quem estoura mais os cofres públicos com seus orçamentos gigantescos e privilégios travestidos com palavras doces como conquistas e direitos.

Depois dos juros e da previdência, o gasto com pessoal é o que mais pesa no orçamento público. Dessa forma é imprescindível para o país saber administrar suas despesas com pessoal, se quiser que sobre dinheiro para fazer o que realmente interessa. Esse país não é formado de servidores públicos. A esmagadora maioria trabalha na iniciativa privada e espera ansiosamente por serviços decentes em retribuição aos impostos extorsivos.

Definir prioridades e estabelecer metas e estratégias nunca foi o forte do estado brasileiro, salvo exceções vergonhosas. Enquanto isso for verdade, continuaremos sendo um país atrasado, injusto e caótico, sem perspectiva de dias realmente melhores para a sua maioria. Já para alguns poucos, certamente, dias melhores virão, com as novas MP’s.

Voltarei a falar desse assunto

Lula é vaiado – Genuína manifestação das massas. Serra é vaiado – deprimente manifestação de desordeiros.

28 abril, 2008

Impressionante a parcialidade da imprensa de Pindorama. Lula foi vaiado por uma claque do César Maia no Pan, horas depois a cena era exibida à exaustão como manifestação da insatisfação “popular” e da “irreverência”, “independência” e “desaprovação” do povo carioca.

Agora, em evento público no estado de São Paulo, reduto do PSDB, Lula é ovacionado e o Serra é humilhado, provavelmente por uma claque petista. No entanto, a vaia do governador do mais importante estado do país e principal candidato à sucessão presidencial parece não ser tão importante, sendo exibida como uma mal-educada manifestação de desordeiros. Parece que aos paulistas não são permitidos arroubos de irreverência e legítima aprovação.

No mesmo evento, o presidente falou que não ia ser um presidente que iria resolver os problemas do país, ou de uma cidade, mas eram necessários vários políticos comprometidos com o país em sequência para que os problemas sejam efetivamente combatidos. No entanto, a imprensa chapa-preta estampa em seus jornais e sites que Lula diz que oito anos não são suficientes para resolver os problemas do país, querendo fazer parecer ao leitor desavisado que o presidente flerta com um terceiro mandato. É desanimador ler esse tipo de jornalismo sensacionalista, distorcido e descomprometido com a verdade. Pior que já sabem que esse tipo de mentira ridícula não cola mais e a população já sabe identificar essas farsas, mas certamente ainda existe quem pague para que escroques continuem a escrever e publicar esse tipo de coisa.

Raposa Serra do Sol – Livres impressões

19 abril, 2008

A Reserva Raposa Serra do Sol foi homologada em 2005, pelo presidente Lula. O início do processo de homologação da reserva se deu no governo Fernando Henrique, quando o Ministro da Justiça era o Nelson Jobim, atual ministro da defesa, portanto chefe do general Heleno, atual comandante do Exército brasileiro na Amazônia. Índios da região lutam pela homologação da reserva há cerca de 30 anos. Grileiros tomaram conta de parte das terras indígenas nesse período e iniciaram atividades agrícolas, principalmente arroz.

Em 1988, a Constituição Federal é promulgada e garante aos indíos a posse de seus territórios. Durante o processo de homologação, foi dada oportunidade para instituições e pessoas que se sentissem prejudicadas participassem do procedimento judicial, como foi feito. Décadas se passaram até que a homologação saísse. Em 2005, o Lula homologa a reserva de forma contínua, como queriam os índios, e não em forma de ilhas como previa o plano do governo anterior. Esse ato foi fundamental nas razões do conflito atual. Em todos os casos planejados, áreas foram destinadas para a instalação de bases de vigilância do Exército, fato muito pouco informado até o momento. Agora, depois de discutido o caso na justiça e perdido em juízo, da forma legal, conforme prevê a nossa constituição, os agricultores não se conformam da decisão de desocupação da área e se negam a cumpri-la, inclusive com suspeitas de atos de insurgência apoiados por indivíduos ligados ao Exército.

Tradicionalmente, a região foi colonizada, além de outros grupos, por descendentes de militares, principalmente gaúchos, que iam transferidos à trabalho e por lá permaneciam. Por isso e por ser uma das únicas instituições do estado brasileiro com presença efetiva na região, a população branca do lugar e o Exército possuem um forte relacionamento.

O medo de perder a Amazônia para estrangeiros sempre foi uma constante no imaginário do Exército brasileiro. Pelo tamanho, riqueza e complexidade, a região assusta aqueles cuja incumbência fundamental é garantir a soberania brasileira. Tal sentimento potencializa o temor e favorece a criação de correntes de pensamento um tanto quanto paranóicas com a invasão estrangeira, dentro do exército. As correntes paranóicas possuem nesse caso interesses semelhantes aos dos arrozeiros com quem se aliam, favorecidas pelos laços de décadas de relacionamento sozinhos na selva. A diferença cultural entre os indígenas da região, os agricultores gaúchos e os militares também favorece a aliança entre os últimos e o estranhamento em relação aos primeiros. Importante ressaltar a nobre motivação, embora discutível conduta, tanto dos arrozeiros como do exército na defesa de suas posições.

A participação de organizações não governamentais com origem estrangeira contribui ainda mais para alimentar as suspeitas dos militares da corrente paranóica. A política de comunicação do exército prega o excelente relacionamento entre a instituição e indígenas, mas a instituição expõe, nesse caso particular, as deficiências de tal relacionamento. O exército orgulha-se de manter em seus quadros na região grande quantidade de indígenas, o que é um fato. No entanto, os indígenas ocupam posições subalternas na instituição, não figurando com a mesma frequência entre os oficiais superiores e generais. Dessa forma, as decisões importantes da instituição não são representativas dos interesses indígenas da região, que continuam a ser vistos, assim como sua posição dentro da corporação, como brasileiros de segunda classe, ou até mesmo como estrangeiros, ou supostos subversivos interessados em obter parte do território nacional para formar seu próprio país a partir de seu povo e sua cultura tão supostamente distintas da reconhecida pelo oficiais do exército como a “cultura brasileira”. A questão da “raça”, cultura e o preconceito, são pois, fatores essenciais para a compreensão do conflito.

A insatisfação com a reserva contínua e o receito de dificuldades em entrar oficialmente na área após a homologação expõem na realidade o mal relacionamento da instituição com os alguns grupos indígenas locais. Fator que deveria ter sido esclarecido e resolvido no momento do ato da homologação em 2005. Provavelmente o relacionamento gélido entre o Presidente, o Exército e alguns grupos indígenas contribuíram significativamente para o desastre anunciado. Prova da imaturidade de todas as partes envolvidas e da não superação do processo de abertura política desde o fim da ditadura em 1984-1985.

O Exército desde o início mostrou-se contrário a homologação. No entanto, após todos os trâmites legais, inclusive os preparativos da execução, como não viu seu ponto de vista privilegiado, agora se manifesta de forma mais agressiva contra a homologação. Isso levanta a questão de até que ponto se tem Estado de Direito no País. É como se a lei e a constituição só servissem se atendessem aos interesses da caserna. O Exército usa como argumento o supremo direito de preservar a ordem constitucional. Ocorre que o faz justamente á revelia de garantias que a própria constituição, que jura defender, prevê. Ameaçam ,através de entidades supostamente representativas, passar por cima do devido processo legal, da autoridade do Presidente da República e de seus ministros, do Judiciário, da Polícia Federal, dos direitos dos indígenas e da soberania das sentenças judiciais, todos também previstos na constituição, em razão de uma ainda não devidamente comprovada ofensa a um outro preceito constitucional, a soberania territorial brasileira.

Como já é costume nos últimos anos, armada uma situação de conflito de qualquer grupo com o governo, e com o exército não ia ser diferente, forças políticas de oposição internas movem-se agilmente no sentido de aumentar, potencializar ainda mais o conflito, dando ares de séria crise institucional e de até de governabilidade, se possível. Qualquer coisa é motivo para o mais indignado e inflamado discurso supostamente nacionalista e cheios de adjetivos agradáveis aos ouvidos castristas, evocadores do brio militar e da nobre missão de defender a pátria dos “entreguistas” e de outros “istas” famosos. Os oportunistas se aliam rapidamente com os militares, esquecem as antigas acusações de que os militares ganhavam muito e faziam pouco e o desprezo pelo chamado “interesse nacional” tão caro aos militares e tão barato à certos partidos de oposição e veículos de imprensa, e juram agora serem amigos de infância. Enquanto isso, com palavras retiradas do baú, copiadas de jornais velhos, militares aposentados se levantam da frente de seus sofás e vão para a velha máquina de escrever, pegam o telefone e ligam para aqueles amigos mais “modernos” que ainda se encontram na ativa, para pedir informações e se sentirem um pouco vivos, e terem enfim um pouco de sentido e ação na vida entediada de militar aposentado em regime democrático sem conflito militar à vista.

Nacionalismo e patriotismo: como usar esses conceitos a seu favor em qualquer situação e parecer inteligente.

19 abril, 2008

Vez por outra um indivíduo aparece na televisão ou na imprensa escrita defendendo posições “nacionalistas” ou “patrióticas”. Esse post não vai falar dessas pessoas. Dependendo do espectro ideológico do sujeito e da mídia, é massacrado ou execrado. O núcleo de seus argumentos não costuma importar muito.

O importante nesse caso são as reações que exaltam ou ridicularizam os conceitos, dependendo de para onde o vento sopra no dia, se para a esquerda, ou para direita. Importante também é reconhecer essas escorregadas e identificar suas origens contumazes. Infelizmente, nos últimos anos, no Brasil, assiste-se a uma polarização ideológica, que gera pérolas deprimentes.

Um famoso colunista de uma famosa revista nacional, certa vez, entrevistou um famoso escritor e jornalista que admiro. Trocavam afagos e se identificavam efusivamente em valores e ideais, exalando sofisticação e inteligência, ironizando os pobres e ignorantes mortais que não pensavam como eles. Perguntou o entrevistador ao entrevistado:

Colunista – Você endossaria a frase do Samuel Johnson de que o patriotismo é o último refúgio do canalha?
Entrevistado – Sem nenhuma dúvida. Qualquer tipo de fidelidade que passa na frente do foro íntimo é, para mim, a definição do mal.

Colunista – É a destruição do indivíduo.
Entrevistado – Exatamente. Porque, quando isso acontece, aí tudo é permitido. No fundo, a única coisa que coloca limites ao horror, para mim, é o foro íntimo. Eu digo que é o mal porque é a definição do mal do século 20, que deu no fascismo, no nazismo, no stalinismo, em
Pol Pot.”

Quem teve acesso a entrevista, pôde comprovar que tem trechos geniais, e muitos dos conceitos pregados como a defesa dos direitos do indivíduo perante à coletividade e o estado são simpáticos ao bom senso. A manipulação não fica tão clara vista isoladamente. O pulo do gato do leitor safo, é comparar como os mesmos conceitos foram usados pelo mesmo colunista, em situações diferentes.

Essa semana, a direita brasileira veio à forra e ao delírio com as declarações do ilustre general Heleno, que diga-se de passagem tem minha boa-fé pelo trabalho já realizado. Por enquanto, só por isso.

O discurso do general, do clube militar e de seus apoiadores é repleto de expressões do tipo “interesse nacional”, símbolo do pensamento nacionailsta. O cerne do argumento contra a demarcação da reserva indígena é a dificuldade de penetração do exército na região para preservar a soberania e o isolamento da área provocado pela ausência de ações de colonização por não-índios.

Eu não vou me alongar na opinião sobre a demarcação da reserva agora. Faço isso em outro post, se ainda tiver clima. Digo apenas que sou parcialmente simpático à opinião do exército, embora discorde veementemente da maneira excêntrica que a instituição tem de expô-la. Por que será que só os lunáticos se destacam nessa hora, geralmente de pijama, para defender interesses legítimos de maneira cretina ?

Comentando o fato, o nobre colunista, muito pouco afeito ao governo, expôs o cofrinho, mas com a categoria que lhe é peculiar:

” Quanto tempo vai demorar para aparecer algum artigo irado na imprensa acusando de “vivandeiras” e “lacerdistas” aqueles que deram seu apoio ao general Augusto Heleno, comandante militar da Amazônia? Deixe-me ver… Talvez 24 horas. Com certeza, 48.”

“Heleno deu uma aula no Clube Militar, cuja existência é legal, e falou aquilo que todos sabiam ser o seu pensamento.”

“O Clube da Aeronáutica reforçou a reação de militares à repreensão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao general Augusto Heleno Ribeiro Pereira. O general Heleno criticou a política indigenista do governo federal. O presidente do clube, tenente-brigadeiro da Aeronáutica Ivan Frota, afirmou, em nota, que “o país conhecerá o maior movimento de solidariedade militar” caso as repreensões continuem”.”

Nesse último trecho, a cartilha jornalística é minuciosamente respeitada. Nada de opiniões, juízos de valor ou adjetivos engraçadinhos, tão característicos ao nobre colunista. Só relato frio e ordenado dos fatos. Nenhum comentário ao teor do discurso é feito. Passa-se a idéia de não comprometimento do colunista com o discurso. Nem precisa, só pegar carona nele já é suficiente. É aberto espaço de destaque para a inflamada manifestação de um cidadão acostumado a inflamadas bravatas supostamente nacionalistas sobre qualquer coisa, e saudoso de tempos não muito nobres de nossa história.

Em nenhum momento o colunista usa termos como “interesse nacional”, “soberania nacional”, ou coisas do gênero. É profisisonal. Só iniciados conseguem identificar incoerência entre execrar ironicamente o patriotismo como “último refúgio do canalha” e depois, por interesse político, elogiar e defender posições e grupos sociais motivados primordialmente por ideais supostamente patrióticos.

Sugiro ao leitor tentar adivinhar que interesses que existem em comum entre os dois pensamentos que, mesmo discordando do tema patriotismo, ignoram totalmente esses “detalhes sem importância” para se unirem em outro momento patético do nosso querido e sofrido país. Tudo isso me faz lembrar que, mesmo com investment grade no Japão, matéria na “The Economist” nos chamando de potência e crescimento acima de 5%, ainda somos o velho e bom vizinho do Paraguai.

Patriotismo Pragmático

19 abril, 2008

Antes de escrever sobre temas polêmicos, gosto de entregar de bandeja aos meus três ou quatro leitores minha opinião, pra que não precisem ficar pescando sutilezas no meu discurso pra tentar adivinhar, como em certos lugares, correndo o risco de transferir para mim suas próprias opiniões inconscientes.

Eu me considero saudávelmente patriota, com uma leve e pragmática dose de nacionalismo. Sim, pois patriotismo e nacionalismo, são coisas diferentes. Não me iludo, embora preserve esperanças, imagninando que o mundo é constituído de povos amigos dispostos a nos ajudar. Desde sua origem (principalmente na sua origem), o velho Brasil sempre sofreu na mão de povinhos malandros, e até hoje paga bem caro por isso. Toda a tão falada malandragem brasileira, na minha opinião, é uma defesa individual inconsciente do papel de otário internacional ao qual a nata da malandragem mundial (e nacional também) nos relegou por séculos.

Devaneio do dia: A tecnologia faz com o trabalho intelectual hoje em dia, a mesma coisa que fez com o trabalho físico na Revolução Industrial.

26 março, 2008


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No séc. XVIII, com o desenvolvimento da indústria na Europa, os trabalhadores se viam ameaçados em seus empregos por máquinas que substituíam a força de centenas de homens. O custo do trabalho braçal sofreu uma queda expressiva, os artesãos viram seus negócios virarem poeira da noite para o dia, tiveram que aposentar suas ferramentas atrasadas, formaram fila nas portas das indústrias e começou a ser montado um exército de reserva que derrubava ainda mais o preço do trabalho físico. No início, máquinas eram quebradas em protestos de trabalhadores. Naquela época, grande quantidade de riqueza começou a se concentrar na nova classe de industriais, em detrimento da mão de obra barata que era explorada em condições desumanas.

Hoje em dia, o que se vê ? O desenvolvimento das telecomunicações fez com que a informação pudesse ser reproduzida e transportada a custos irrisórios, reduzindo seu custo marginal a praticamente zero. Redes de informações e de trabalhadores voluntários criaram estruturas que compartilham trabalho e o distribuem gratuitamente, forçando a indústria a reduzir os preços de produtos como CDs, DVDs, programas de computador, serviços de informações, música e coisas do gênero. Alguns modelos de negócio tiveram que ser completamente reinventados, sob pena de extinção. Da mesma forma, a renda de produtos e serviços de informação tende a se concentrar em poucos centros de inovação e produtividade que conseguem se manter na crista da onda e aproveitar a grande escala proporcionada pela globalização.

Nesse sentido, o trabalho intelectual deve sofrer uma redução NA MÉDIA de seu valor nos próximos anos em muitas áreas. Lógico que determinadas áreas e situações de extrema qualificação e posicionamento no mercado manterão ou até mesmo multiplicarão seu valor, conforme já foi comentado.

A grande diferença entre os dois momentos é o poder econômico dos grupos mais prejudicados nos períodos. Como se vê, os proletários do séc. XVIII e XIX e os barões da indústria eletrônica do Séc. XX e XXI não são exatamente parecidos. Isso talvez explica toda a lavagem cerebral midiática que tenta a qualquer custo incutir novos e estranhos valores em nossas mentes, para que consideremos como criminosos pessoas que apertam botões no teclado de um computador para escutar novamente uma música que acabou de escutar no rádio.

O proletariado teve que se adaptar aos novos tempos …

Esse post já está muito marxista pro meu gosto. Paro por aqui.

Dá-lhe Polícia Federal !

12 março, 2008

Primeiro esclareço: Sou contrário às medidas de reciprocidade no caso dos turistas brasileiros “inadmitidos” na Espanha, como já expliquei em outro post, por não atender ao legítimo interesse nacional, ações do Estado não deve ser movidas por sentimentos pessoais, ainda mais sentimentos pequenos como vingançinhas, etc.

Mas isso é razão. E eu não sou 100% razão ! A outra parte não quer saber de teorias, consequências ou interesses. Essa parte adorou ver a cara da gringaiada ao se ferrar no aeroporto de Fortaleza. É bom saber que eles devem ter sentido o gostinho de passar sete horas em um avião e depois ser mandado de volta como um delinqüente. E olha que fomos legais ! Eles não foram presos por dois dias, não foram destratados ou humilhados pelos policiais e nem tiveram que passar fome ou sede. Não fomos nós que começamos com essa insensatez.

Quem não assistiu a reportagem do Jornal Nacional, aí o link

Os tugas devem ter adorado ver a cara do espanhol voltando ! hehehe

Brasileiros barrados na Europa – Desculpas esfarrapadas deixam escapar a verdade

11 março, 2008

As recentes deportações e “inadmissões” de brasileiros na Europa têm suscitado manifestações de repulsa e indignação no Brasil, mas também a defesa e justificação da atitude das autoridades européias. Na defesa do comportamento da imigração européia, pode-se tirar importante lição sobre o funcionamento do sistema de relações internacionais, que nada tem de moderno.

Um dos argumentos mais comuns de quem acha justificável e correto o endurecimento das regras de entrada é o de que os imigrantes “ilegais” não estão conseguindo mais ser absorvidos pela economia européia, e isso traria o aumento do desemprego e de custos como saúde e assistência social. Os imigrantes excessivos também são responsabilizados pelo inchaço das grandes cidades, carestia do mercado imobiliário e aumento da violência urbana.

Seguindo essa linha de raciocínio, o arrocho nas fronteiras de imigração seria uma política necessária, evitando a entrada de novos imigrantes. Um dos meios mais comuns de entrada de imigrantes ilegais seria o aeroporto, passando-se por turista comum. Dessa forma, o aumento no rigor do controle de documentação do turista levaria a um menor número de imigrantes ilegais que adentram ao país.

Ocorre que, na realidade, os imigrantes são proporcionalmente mais responsáveis pelo crescimento da economia européia nos últimos anos que os próprios europeus. E o velho mundo necessita da força de trabalho estrangeira se deseja manter níveis razoáveis de crescimento que sustentem a atual força de trabalho que vai se aposentar em breve. Além disso, o trabalho do imigrante hoje paga impostos e a previdência que garante confortável aposentadoria aos velhos eleitores da direita xenófoba.

Não bastasse isso, o velho continente se mostra prepotende e autocentrado, e se comporta como se fosse a única região do mundo onde existe desemprego e inchaço das grandes cidades. Como se seu modelo colonial violentamente imposto ao resto do mundo nos últimos três séculos não tivesse nenhuma responsabilidade pela situação dos países subdesenvolvidos e em desenvolvimento que hoje exportam a força de trabalho excedente, muitas vezes descendente do próprio povo europeu, como mesmos sobrenomes e antepassados. A Europa deseja o Bônus, e rejeita o Ônus.

Á primeira vista me parece bem previsível que a Europa tente maximizar suas vantagens e reduzir as suas desvantagens, explorando regiões menos desenvolvidas tecnologicamente. Imoral, mas as relações de poder no sistema internacional costumam ser amorais. O que não me parece razoável, é ver cidadãos, intelectuais e autoridades dos países submetidos absorverem o discurso do explorador. Parece que estamos sempre prontos para compreender as razões pelas quais nossos patrões não podem nos dar aumento, por mais absurdas que pareçam. Afinal de contas, eles precisam manter seus privilégios globais. O que não percebemos é que, a menos que trabalhemos diretamente para algum “Think Tank” europeu de plantão, eles não são mais nossos patrões, e somos livres para sabotar esse discurso, e não reforçá-lo e passá-lo adiante.

O mundo passa por dificuldades comuns. Lugares mais prósperos tendem a atrair mais pessoas em busca de melhor qualidade de vida. Sempre foi assim, não é uma novidade. No passado nosso país recebeu levas e mais levas de espanhóis, portugueses, italianos, alemães, poloneses, russos, irlandeses, franceses, ingleses, ucranianos, enfim, europeus que em algum momento da história acharam mais vantajoso emigrar para o Brasil que permanecer em suas pátrias. É o preço que se paga pela prosperidade no mundo global. O Brasil, por exemplo, mesmo com toda sorte de problemas sociais e econômicos ainda recebe imigrantes da África, Oriente médio e América Latina, que concorrem com a mão de obra nacional de regiões mais pobres, e não precisa colocar pessoas em celas por dias, privá-las de conforto mínimo, nem agredir sua cultura e seus países.

Enfim, podem chorar à vontade suas mazelas sociais europeus. Mas por aqui as coisas vão bem pior que por aí, e temos mais o que fazer que dar a vocês algum tipo de preferência, ou prioridade, ou compreensão, em detrimento da exigência de um necessário tratamento igualitário em nossas relações internacionais. Não há motivos para sermos diferentes.

Medidas Européias de Combate à Imigração Ilegal e Retaliação do Brasil

7 março, 2008

A Europa tem problemas com a imigração ilegal, mas isso não é motivo para autoridades de Estado criarem políticas discriminatórias e patentemente ineficientes. Muito menos para acobertar maus tratos e desrespeito a Direitos Humanos. A falta de sensibilidade das autoridades também é um fator agravante, principalmente se dirigida a países que no passado não muito distante, serviram de destino para cidadãos europeus que enfrentavam dificuldades financeiras ou fugiam das aventuras bélicas de suas “nações-irmãs”. As exigências de entrada discriminam turistas normais, não imigrantes ilegais. Além disso, esses métodos têm se mostrado ineficazes contra quem deseja a qualquer custo imigrar para o continente. As principais vítimas de políticas desse tipo são os turistas de classe média, jovens e “minorias” como mulheres bonitas, negros e descendentes de índios. Além é claro, do relacionamento entre os países.

O Brasil pensa em retaliar. Acho que não devia. É pequena demais essa reação, não devemos tratar os outros como não queremos ser tratados e perderíamos importante receitas de turismo, de relacionamento cultural e científico, fatores importantes para um país como o nosso. A retaliação recíproca não atende ao legítimo interesse do país, apenas a um mimado e inseguro desejo de vingança. Nossa conduta deveria ser manter o melhor tratamento possível a turistas e imigrantes, que tanto trazem de bom para o país, e começar uma campanha de protesto contra esse tipo de discriminação absurda junto a organismos internacionais públicos e privados. O resto bem ou mal já está sendo feito. Deveríamos alertar oficialmente os brasileiros que pretendem viajar para a Europa, do tipo de riscos que correm, e da documentação exigida. Isso só já seria um desestímulo a viagens, e a redução de turistas já seria uma boa punição para a tola política européia. De quebra, economizaríamos divisas !

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