
Relutei em escrever o tópico desse post. Afinal, é muito pessimista. Mas, diante dos acontecimentos na Espanha nos últimos dias não me restou muito otimismo. Depois da inadimissão da Física brasileira Patrícia Guimarães, dois outros estudantes, e outras dezenas de brasileiros e sul-americanos, foram “inadmitidos” no Aeroporto Internacional de Barajas. Os estudantes iam participar de congressos, carregavam trabalhos científicos, cartas de recomendação, recursos, e, mesmo assim, foram “inadmitidos” e tiveram que passar algumas dezenas de horas isolados em salas desconfortáveis sendo tratados como bandidos por policiais espanhóis. As autoridades espanholas alegam que os brasileiros não apresentaram a documentação exigida para entrada no país, de acordo com o Acordo Schengen. As exigências do bendito acordo são as seguintes:
- Passaporte com validade mínima de 6 meses
- Passagem nominal, intrasferível, com volta marcada ao país de procedência
- Comprovação de meios econômicos ( pelo menos 60 euros por dia de permanência por pessoa)
- Comprovante de pagamento de alojamento ou hotel pelo período total de permanência ou “carta-convite” original na qual é chamado a ir à Espanha. Essa Cartinha deve ser escrita em Delegacia de Polícia do Anfitrião.
- Seguro médico internacional pelo período total de permanência, com cobertura de pelo menos 30 mil euros em caso de doença, acidente ou repatriação, que cubra todo o território Schengen.
- Justificativa do motivo da viagem
Analisando os requisitos, me pergunto o seguinte:
- A cartinha então vai ter que ser enviada por correio antes pro sujeito que vai viajar ? Já que tem que ser original. Já pensou na burocracia pra pedir a famigerada cartinha, pro “anfitrião” ir a uma delegacia no país, redigir, passar no correio, enviar, você receber ?
- Se eu comprovei que tenho grana, pra quê eu tenho que comprovar reserva em hotel ou alojamento por período total da viagem ? Se eu quiser mudar de hotel, ou de roteiro no meio da viagem, como vai ser ? Vou ter que pagar uma reserva “só pra espanhol ver” ? Metade da graça da viagem, o inesperado e a surpresa, vai se perdendo no meio da ignorância e da burocracia.
- Com 60 Euros por dia eu tenho uma vida de rei na Europa. Já viajei gastando cerca de 35 euros por dia, há pouco tempo, e foi muito bom e confortável, sem privações, mas sem luxos. E olha que não fiquei em casa de parentes ou amigos. O mínimo de 30 euros por dia seria mais que razoável, principalmente para jovens estudantes. Essa medida é claramente discriminatória.
- Por justificativa da viagem, Será que valeria “Pra relaxar”, “Por que eu quis”, “Pra desopilar do trampo”, “Pra ampliar os horizontes”, “Para observar o modo de vida exótico do europeu médio” ? Esse é o tipo de pergunta ridícula. O famoso questionário com as opções Turismo, Negócios, Estudo e Outros (tratamento de saúde, etc) seria mais que suficiente. Se alguém quisesse entrar no país para cometer crimes obviamente não iria dizer no aeroporto.
Os estudantes barrados denunciam a existência de uma cota de, pasmem, LATINOS, para ingresso na ESPANHA! Autoridades brasileiras da embaixada e do Ministério das Relações Exteriores também consideram essa possibilidade. Dá pra acreditar? Imagine o caso: O senhor Esteban Hernandez González, funcionário da imigração do Aeroporto na Espanha, dizendo para a senhorita argentina Isabel Lopez González que ela não vai ser admitida no país dele porque a cota para pessoas da origem dela já está atingida. Lógico que ele não deve dizer a verdadeira razão da deportação para a senhorita Isabel. Mas ele sabe ! Isso é o que basta para a situação ser um absurdo. Aliás, a simples discriminação em razão de qualquer origem é odiosa. Quando a origem discriminada é a mesma do país discriminador é esquizofrênico! Daqui a pouco as pessoas vão ser discriminadas pelo tipo de dieta que praticam ou pelas cores preferidas.
Eu amo viajar. Estou percebendo que está cada vez mais difícil e burocrático fazer algo que eu tenho como estilo de vida e exercício de liberdade. Com essa nova realidade, se desejo viajar, passo a ser um suspeito, ter que prestar contas e ser vigiado em todos os meus passos. Gosto de andar de acordo com a lei. O simples fato de mudar de um albergue para outro por causa de um péssimo café da manhã, sem avisar as autoridades de imigração, pode me fazer sentir na clandestinidade durante minhas férias. Afinal de contas, as autoridades devem considerar muitíssimo suspeito não se hospedar no albergue reservado sem avisar! E ter que comunicar cada vez que alterar detalhes patéticos dos meus planos de viagem transformará a experiência num suplício. Será que vale a pena gastar dinheiro para experimentar isso?