As recentes deportações e “inadmissões” de brasileiros na Europa têm suscitado manifestações de repulsa e indignação no Brasil, mas também a defesa e justificação da atitude das autoridades européias. Na defesa do comportamento da imigração européia, pode-se tirar importante lição sobre o funcionamento do sistema de relações internacionais, que nada tem de moderno.
Um dos argumentos mais comuns de quem acha justificável e correto o endurecimento das regras de entrada é o de que os imigrantes “ilegais” não estão conseguindo mais ser absorvidos pela economia européia, e isso traria o aumento do desemprego e de custos como saúde e assistência social. Os imigrantes excessivos também são responsabilizados pelo inchaço das grandes cidades, carestia do mercado imobiliário e aumento da violência urbana.
Seguindo essa linha de raciocínio, o arrocho nas fronteiras de imigração seria uma política necessária, evitando a entrada de novos imigrantes. Um dos meios mais comuns de entrada de imigrantes ilegais seria o aeroporto, passando-se por turista comum. Dessa forma, o aumento no rigor do controle de documentação do turista levaria a um menor número de imigrantes ilegais que adentram ao país.
Ocorre que, na realidade, os imigrantes são proporcionalmente mais responsáveis pelo crescimento da economia européia nos últimos anos que os próprios europeus. E o velho mundo necessita da força de trabalho estrangeira se deseja manter níveis razoáveis de crescimento que sustentem a atual força de trabalho que vai se aposentar em breve. Além disso, o trabalho do imigrante hoje paga impostos e a previdência que garante confortável aposentadoria aos velhos eleitores da direita xenófoba.
Não bastasse isso, o velho continente se mostra prepotende e autocentrado, e se comporta como se fosse a única região do mundo onde existe desemprego e inchaço das grandes cidades. Como se seu modelo colonial violentamente imposto ao resto do mundo nos últimos três séculos não tivesse nenhuma responsabilidade pela situação dos países subdesenvolvidos e em desenvolvimento que hoje exportam a força de trabalho excedente, muitas vezes descendente do próprio povo europeu, como mesmos sobrenomes e antepassados. A Europa deseja o Bônus, e rejeita o Ônus.
Á primeira vista me parece bem previsível que a Europa tente maximizar suas vantagens e reduzir as suas desvantagens, explorando regiões menos desenvolvidas tecnologicamente. Imoral, mas as relações de poder no sistema internacional costumam ser amorais. O que não me parece razoável, é ver cidadãos, intelectuais e autoridades dos países submetidos absorverem o discurso do explorador. Parece que estamos sempre prontos para compreender as razões pelas quais nossos patrões não podem nos dar aumento, por mais absurdas que pareçam. Afinal de contas, eles precisam manter seus privilégios globais. O que não percebemos é que, a menos que trabalhemos diretamente para algum “Think Tank” europeu de plantão, eles não são mais nossos patrões, e somos livres para sabotar esse discurso, e não reforçá-lo e passá-lo adiante.
O mundo passa por dificuldades comuns. Lugares mais prósperos tendem a atrair mais pessoas em busca de melhor qualidade de vida. Sempre foi assim, não é uma novidade. No passado nosso país recebeu levas e mais levas de espanhóis, portugueses, italianos, alemães, poloneses, russos, irlandeses, franceses, ingleses, ucranianos, enfim, europeus que em algum momento da história acharam mais vantajoso emigrar para o Brasil que permanecer em suas pátrias. É o preço que se paga pela prosperidade no mundo global. O Brasil, por exemplo, mesmo com toda sorte de problemas sociais e econômicos ainda recebe imigrantes da África, Oriente médio e América Latina, que concorrem com a mão de obra nacional de regiões mais pobres, e não precisa colocar pessoas em celas por dias, privá-las de conforto mínimo, nem agredir sua cultura e seus países.
Enfim, podem chorar à vontade suas mazelas sociais europeus. Mas por aqui as coisas vão bem pior que por aí, e temos mais o que fazer que dar a vocês algum tipo de preferência, ou prioridade, ou compreensão, em detrimento da exigência de um necessário tratamento igualitário em nossas relações internacionais. Não há motivos para sermos diferentes.




