Nacionalismo e patriotismo: como usar esses conceitos a seu favor em qualquer situação e parecer inteligente.

19 abril, 2008

Vez por outra um indivíduo aparece na televisão ou na imprensa escrita defendendo posições “nacionalistas” ou “patrióticas”. Esse post não vai falar dessas pessoas. Dependendo do espectro ideológico do sujeito e da mídia, é massacrado ou execrado. O núcleo de seus argumentos não costuma importar muito.

O importante nesse caso são as reações que exaltam ou ridicularizam os conceitos, dependendo de para onde o vento sopra no dia, se para a esquerda, ou para direita. Importante também é reconhecer essas escorregadas e identificar suas origens contumazes. Infelizmente, nos últimos anos, no Brasil, assiste-se a uma polarização ideológica, que gera pérolas deprimentes.

Um famoso colunista de uma famosa revista nacional, certa vez, entrevistou um famoso escritor e jornalista que admiro. Trocavam afagos e se identificavam efusivamente em valores e ideais, exalando sofisticação e inteligência, ironizando os pobres e ignorantes mortais que não pensavam como eles. Perguntou o entrevistador ao entrevistado:

Colunista – Você endossaria a frase do Samuel Johnson de que o patriotismo é o último refúgio do canalha?
Entrevistado – Sem nenhuma dúvida. Qualquer tipo de fidelidade que passa na frente do foro íntimo é, para mim, a definição do mal.

Colunista – É a destruição do indivíduo.
Entrevistado – Exatamente. Porque, quando isso acontece, aí tudo é permitido. No fundo, a única coisa que coloca limites ao horror, para mim, é o foro íntimo. Eu digo que é o mal porque é a definição do mal do século 20, que deu no fascismo, no nazismo, no stalinismo, em
Pol Pot.”

Quem teve acesso a entrevista, pôde comprovar que tem trechos geniais, e muitos dos conceitos pregados como a defesa dos direitos do indivíduo perante à coletividade e o estado são simpáticos ao bom senso. A manipulação não fica tão clara vista isoladamente. O pulo do gato do leitor safo, é comparar como os mesmos conceitos foram usados pelo mesmo colunista, em situações diferentes.

Essa semana, a direita brasileira veio à forra e ao delírio com as declarações do ilustre general Heleno, que diga-se de passagem tem minha boa-fé pelo trabalho já realizado. Por enquanto, só por isso.

O discurso do general, do clube militar e de seus apoiadores é repleto de expressões do tipo “interesse nacional”, símbolo do pensamento nacionailsta. O cerne do argumento contra a demarcação da reserva indígena é a dificuldade de penetração do exército na região para preservar a soberania e o isolamento da área provocado pela ausência de ações de colonização por não-índios.

Eu não vou me alongar na opinião sobre a demarcação da reserva agora. Faço isso em outro post, se ainda tiver clima. Digo apenas que sou parcialmente simpático à opinião do exército, embora discorde veementemente da maneira excêntrica que a instituição tem de expô-la. Por que será que só os lunáticos se destacam nessa hora, geralmente de pijama, para defender interesses legítimos de maneira cretina ?

Comentando o fato, o nobre colunista, muito pouco afeito ao governo, expôs o cofrinho, mas com a categoria que lhe é peculiar:

” Quanto tempo vai demorar para aparecer algum artigo irado na imprensa acusando de “vivandeiras” e “lacerdistas” aqueles que deram seu apoio ao general Augusto Heleno, comandante militar da Amazônia? Deixe-me ver… Talvez 24 horas. Com certeza, 48.”

“Heleno deu uma aula no Clube Militar, cuja existência é legal, e falou aquilo que todos sabiam ser o seu pensamento.”

“O Clube da Aeronáutica reforçou a reação de militares à repreensão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao general Augusto Heleno Ribeiro Pereira. O general Heleno criticou a política indigenista do governo federal. O presidente do clube, tenente-brigadeiro da Aeronáutica Ivan Frota, afirmou, em nota, que “o país conhecerá o maior movimento de solidariedade militar” caso as repreensões continuem”.”

Nesse último trecho, a cartilha jornalística é minuciosamente respeitada. Nada de opiniões, juízos de valor ou adjetivos engraçadinhos, tão característicos ao nobre colunista. Só relato frio e ordenado dos fatos. Nenhum comentário ao teor do discurso é feito. Passa-se a idéia de não comprometimento do colunista com o discurso. Nem precisa, só pegar carona nele já é suficiente. É aberto espaço de destaque para a inflamada manifestação de um cidadão acostumado a inflamadas bravatas supostamente nacionalistas sobre qualquer coisa, e saudoso de tempos não muito nobres de nossa história.

Em nenhum momento o colunista usa termos como “interesse nacional”, “soberania nacional”, ou coisas do gênero. É profisisonal. Só iniciados conseguem identificar incoerência entre execrar ironicamente o patriotismo como “último refúgio do canalha” e depois, por interesse político, elogiar e defender posições e grupos sociais motivados primordialmente por ideais supostamente patrióticos.

Sugiro ao leitor tentar adivinhar que interesses que existem em comum entre os dois pensamentos que, mesmo discordando do tema patriotismo, ignoram totalmente esses “detalhes sem importância” para se unirem em outro momento patético do nosso querido e sofrido país. Tudo isso me faz lembrar que, mesmo com investment grade no Japão, matéria na “The Economist” nos chamando de potência e crescimento acima de 5%, ainda somos o velho e bom vizinho do Paraguai.

Uma resposta to “Nacionalismo e patriotismo: como usar esses conceitos a seu favor em qualquer situação e parecer inteligente.”


  1. Interessante sua linha. Se tiver disposição, continue!
    Sinceramente não havia pensado sob esse prisma.
    Obrigado pela reflexão.


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