Bolha Imobiliária em Brasília – Política de Governo

13 março, 2010

O mercado imobiliário em Brasília bateu todos os recordes em especulação no país nos últimos anos, para a satisfação de uma pequena classe de construtores, corretores imobiliários e antigos proprietários. Todo o restante da população assiste imóvel, à violenta transferência de seu patrimônio para a mão de especuladores, quando se submete à compra de um simples imóvel para viver, muitas vezes minúsculo,longe do trabalho e sem estrutura alguma.

Várias pessoas já escreveram na internet sobre valores absurdos dos imóveis,capacidade de financiamento incompatível mesmo com as rendas mais altas do Distrito Federal e outras provas cabais que ajudam a alertar os futuros compradores sobre a bolha especulativa. Concordo com todos os argumentos, mas não é disso que irei falar.

Meu foco é o papel do Estado – Governo Federal e Governo do Distrito Federal, no processo de privatização do espaço em Brasília e captura dos órgãos públicos responsáveis pelo planejamento urbano e oferta de imóveis na Capital Federal.

Todo terreno no Distrito Federal pertencia ao Estado. Inicialmente,para costruir e incentivar o desenvolvimento da cidade, foi criada uma empresa pública – a Novacap. A cidade foi construída e as primeiras moradias eram destinadas a funcionários públicos, que moravam de graça em apartamentos recém construídos, de acordo com a posição hierárquica e área do serviço público que se encontrassem. Até vinte anos após esse período de instalação, terrenos em áreas nobres da cidade eram comprados à preço de banana, pela baixa procura e grande vazio que dominava o cenário do DF.

Nos últimos vinte anos, no entando, o crescimento exponencial do DF inverteu drasticamente esse cenário. A Terracap, formada a partir de uma divisão da Novacap, ficou com a responsabilidade de vender e urbanizar as áreas públicas disponíveis – e ainda resta muita área pública. À Novacap, restou trabalhos de urbanismo e manutenção na cidade.

Desde então, o cenário é o seguinte: Uma grupo econômico formado por políticos e empresários ligados à contrução civil, tomou conta da estrutura estatal de planejamento urbano e venda de imóveis. Por tomar conta entenda-se se utilizar da estrutura pública para  a realização de ações que beneficiem, antes de tudo, seus próprios interesses, em detrimento do interesse público. Para mascarar essas ações de “interesse público”, é utilizada muita propaganda e são favorecidas outras pequenas classes, como as de antigos proprietários e corretores imobiliários.

A oferta de novas áreas é totalmente controlada por esses grupos. Dessa forma, o governo oferece novos terrenos de forma lenta e insuficiente, para criar uma sensação de ausência de oferta e desequilibrar o mercado. Os órgão públicos não respondem à pressão por novas áreas, natural e esperada, mas respondem eficientemente à agregação de valor em suas ofertas de áreas nobres, com conceitos ultramodernos de “sustentebilidade ambiental”, que de sustentável não tem nada e só serve para inflar os já absurdos valores dos imóveis da Capital.

Esse caso, do setor Noroeste, é um exemplo clássico da captura do estado ao interesse privado. O bairro foi concebido por um órgão estatal para ser um bairro “nobre” e de alta renda. Ora, como pode o Estado, deliberadamente agir no sentido de aumentar a especulação, concentrar a propriedade e segmentar espaço público. Em um regime capitalista saudável, sem captura do Estado, o mercado seria responsável por especular e segmentar espaços imobiliários. Ao governo não caberia interferir e caberia tão somente oferecer condições para que o espaço fosse oferecido a um maior número de beneficiários possível. Em um paradigma ligeiramente mais intervencionista, menos liberal, ao Estado caberia intervir para que os grupos sociais com maior déficit habitacional fossem beneficiados com a política, contribuindo assim para a diminuição  geral da demanda e, conseguentemente, da especulação e dos preços.

Dessa forma, embora o cenário da bolha imobiliária exista por vários fatores associados, a participação do estado na construção de privilégios e na execução de políticas regressivas concentradoras de renda aparece como fator de extrema importância na situação atual. Tal fato se deve à captura do governo por interesses privados de pequenos grupos econômicos.

Na próxima eleição, exija de seu candidato(a), medidas para diminuir a atuação desses grupos na oferta de áreas no DF, bem como cobre maior e urgente oferta de projetos voltados para pessoas com baixa renda (mesmo que você não tenha baixa renda, você irá se beneficiar com uma redução geral de preços e aumento da oferta relativa),e que não sejam projetos excludentes em áreas distantes e com má urbanização, como vem ocorrendo nos últimos vinte anos na Capital.

5 Respostas to “Bolha Imobiliária em Brasília – Política de Governo”

  1. luiz gustavo silva cavallari Says:

    Parabéns pelas palavras.
    Até que em fim vejo outra pessoa perceber algo tão nítido, e que a população não parece perceber.
    Talvez porque o Brasil pareça não ter dono, por ter uma população cheia de equívocos de conceitos, devido a má educação, questões históricas….
    Brasília, como o Brasil não ter projeto, não tem proprietário. Dessa forma, o vácuo é facilmente preenchido por qualquer grupo de picaretas.
    Abraços

  2. waldir pedro alves Says:

    para comerciais.`´E melhor aplicar em títulos do governo , , pois cobre o aluguel e ainda sobra .
    Bem, é preciso de alguém denunciar esse crime contra o povo que já está tão sacrificado, alguém poderia “soprar” alguma coisa no ouvido do LULA, quem sabe êle possa acordar prá isso.

    Grato

    Waldir

  3. PAULO VILARINS DOS SANTOS Says:

    Um mal causado pelo governo último governo no Distrito Federal, que a imprensa não tem noticiado nos jornais, foi dar oxigênio para esta bolha imobiliária, somente nesse governo distrital (em quatro anos), em razão dos fatos narrados neste blog, com muita propriedade,os imóveis no DF dobraram de valor, em alguns casos triplicaram. Espero que a mídia tome conhecimento dessas informações e se atentem para esta questão, a classe média no DF não tem como comprar um imóvel descente para morar em Brasília, apenas os especuladores tem vez na cidade que acaba de completar 50 anos.
    Parabéns pelo blog, alguém conseguiu ver o que está acontecendo no setor imobiliário do DF.

  4. Marcelo Echart Says:

    O fenômeno da bolha imobiliária já é velho conhecido, de modo que se expressa recindivamente de tempos em tempos. Ocorre, contudo, que, no Brasil, e em especial na cidade de Brasília esse efeito pode se mitigar em face da característica do especulador do DF, o qual, em regra, tem capacidade de endividamento, porquanto, com efeito, possui o Governo (federal ou local) como patrão. Dessa maneira, é muito pouco provável que o instituto produza os mesmos efeitos nessa capital.

  5. luis nunes damasques Says:

    Brasilia vive de dinheiro público. Um exemplo disso é a paralisação do mercado imobiliário de Brasilia. Os concursos públicos diminuiram, a clientela diminuiu também. Está difícil vender, ao contrário da certeza generalizada que havia meses atrás de que os preços continuariam a subir absurdamente e sempre haveria uma multidão infindável de compradores disponíveis. Essa multidão sumiu, no máximo uma meia dúzia.Não sei o que vai acontecer com o mercado imobiliário brasiliense, mas não aconselho ninguem a comprar agora, final de 2011.


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